SUPEREI UM MEDO. ESCREVI UM TEXTO.

10/07/15 - 09h00 NOTÍCIAS

É um insulto para a moral machista dos homens, que as mulheres saibam mais, falem mais, sejam mais que eles, que existam para si mesmas! É um insulto para a moral racista, que as pessoas negras formulem, estudem, pensem e apontem a ferida aberta do Brasil, que mascara segregações e aprofunda o extermínio físico e simbólico à nossa população. Nesse sistema patriarcal e racista nitidante nos impulsionam ao cuidado e consequente servidão. Quando desde criança impõem os tais papéis de gênero ao nos presenteiar com nenéns de brinquedo, panelinhas e vassouras, enquanto ao menino é estimulado as diversas habilidades físico motoras e de raciocínio, em jogos de montar, encaixar, sistema de carrinhos, quebra cabeças, bolas, dentre um infinito universo de representação para a vida adulta.


Como resultado de um ensinamento social que inicia-se na infância, na cabeça deles tá introjetado que nascemos para servi-los, para satisfazê-los, para disputar seus corações, conquistar deles carinho, amor e atenção! Daí eles que, dominaram o poder politico e econômico, dominaram também as ideologias e sua disseminação nos meios comunicação. Estamparam no outdoor a mulher apenas como produto sexual. Colocaram no jornal, o anúncio da mulher que é boa só pra "comer", não pra relacionar-se publicamente . Montaram a globeleza, explicitando que aceitam nós negras em destaque apenas se for hipersexualizada, como mercadoria em vitrine, que não serve pra mais nada. O pior de tudo é que, nos fizeram acreditar nessas mentiras! Nos engaram profundamente e subjugaram-nos a essa relação histórica de opressão e exploração.


Essa é uma história de sangue e suor. História de estupros e apagamentos. História que foi escrita pelas mãos dos homens, sobretudo, pelas mãos brancas, européias e colonizadoras de corpos e mentes! Muitas ideias de mulheres negras, como exemplo pleno, foi apagada, muitos movimentos e reivindicações também. O que predominou, foi a ideologia da classe dominante que disseminou tudo que lhes beneficiaria.


E cá pra nóis! Mulheres empoderadas não beneficiam relações de classe e hierarquizadas. - Sobretudo, nós, as MULHERES NEGRAS! Essas que sofrem a maior concentração de injustiças, segregações, violações e retiradas de direitos. - Mulheres que se posicionam, mulheres que falam, que escrevem, não satisfazem aos interesses do Capital, que têm o lucro acima da vida. Aprendi com Carolina de Jesus, aprendi com Lélia Gonzáles, e to querendo gritar pra todas nós ouvirmos: Vamos contar nossas histórias, vamos falar de nossas dores e alegrias. Vamos mostrar o lugar de onde falamos, pois isso importa e incomoda. Incomoda aos que se mantém intactos em seus privilégios e se utilizam deles para nos violentar e calar! Incomoda aos estupradores que são exaltados e defendidos, enquanto nós e nossas irmãs retrocedemos, nos calamos, nos escondemos em casa, enquando os dedos nos apontam CULPA e julgo eternal!


Retrato de Carolina de Jesus.


Uma culpa que não tem fim. Uma culpa que nos amordaça, mas que é diluída ao abrirmos a boca pra dizer que nosso corpo nos pertence. Nosso prazer, para nós mesmas, (não para consumo, ou como mercadoria) será exaltado! Sim, falaremos de nossos gozos, ensinaremos outras a gozarem com suas próprias mãos. Preencheremos as linhas de um livro que não nos representa. Seremos protagonistas nesse palco que nos cortou de cena! É nós por nós e eu, que me amedronto com a exposição de minhas palavras, escrevi esse texto só pra dizer para as mulheres, sobretudo NEGRAS, que é possível! Só pra gritar, que é preciso!

Por Ríssiani Queiróz
Também conhecida como Zacimba, 20 anos. Feminista há dois.
Criadora da página Café, Tesão, Feminismo e Revolução
e produtora de Fanzines de Poesias Feministas.
Militante do coletivo de mulheres negras Aqualtune
e do Movimento RUA - Juventude Anticapitalista.

O Coletivo de Mulheres Jovens Negras Aqualtune
O coletivo se uniu por vínculos ideológicos, afetivos
e por acreditar em uma radical transformação da sociedade.
Em suas ações buscam estimular a escrita
das mulheres negras - a nossa própria escrita,
e o conhecimento sobre produção intelectual, cultural,
política, ativista e afetiva de outras mulheres negras.
As ações do coletivo são guiadas pelo cuidado mútuo
e pelo combate a todo o tipo de violência
e preconceito - como racismo, machismo, bifobia, lesbofobia e transfobia.

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